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• 2/3/2025 - segunda-feira

COLUNISTA CONVIDADO

A inovação tecnológica deve ser
prioridade para a pauta sindical

Por Clemente Ganz Lucio

A inteligência artificial (IA) é uma das várias inovações tecnológicas em desenvolvimento e, na atualidade, a de maior destaque, pois rapidamente deixa de ser apenas mais uma promessa de inovação ou uma questão restrita aos especialistas. Cada vez mais, e de forma acelerada, transforma-se em um desafio econômico, social e político central e estratégico do presente e do futuro muito próximo.

Matéria publicada pelo jornal espanhol El País (14/02) chamou a atenção ao reunir alertas de executivos e pesquisadores diretamente envolvidos no desenvolvimento das tecnologias mais avançadas de IA. O título é eloquente: “La IA causa la alarma de los expertos: ‘Es un sustituto general del trabajo cognitivo’”.

Os alertas não vêm de críticos externos, mas de protagonistas do próprio setor tecnológico. Matt Shumer (CEO da empresa Hiperwrite) e Dario Amodei (CEO da Anthropic), entre outros citados na matéria, afirmam que a IA não representa apenas mais um ciclo de automação, mas uma ruptura estrutural em todo o sistema produtivo, com impactos concretos de substituição ampla do trabalho cognitivo humano.

Da automação à substituição do trabalho cognitivo

Para o movimento sindical, essa questão não pode ser tratada como especulação futurista e, muito menos, com pânico ou catastrofismo tecnológico. O sindicalismo é permanentemente desafiado a intervir nos processos que impactam o mundo do trabalho, a sociedade e a democracia, a fim de influenciar os rumos da dinâmica da realidade. Por isso, as inovações tecnológicas sempre se apresentam como um desafio histórico e, hoje, com a IA, como um desafio urgente e estratégico, pois coloca, de maneira imperativa, no centro da agenda da sociedade a relação entre tecnologia, trabalho, poder, democracia e justiça social.

Ao longo do século XX, o avanço tecnológico esteve associado sobretudo à automação de tarefas manuais e repetitivas. Nos anos 1990, o movimento sindical brasileiro investiu em pesquisas e formação sindical para gerar conhecimento e capacidade de atuação nos locais de trabalho e em processos mais amplos, especialmente por meio da negociação coletiva. Na época, o DIEESE, junto com as Centrais Sindicais e com apoio do MTE e do MCT, investiu na formação de milhares de dirigentes sindicais e produziu pesquisas e estudos em cooperação com universidades e pesquisadores nacionais e internacionais.

Aquela dinâmica de inovação dos anos 1990 impactou os postos de trabalho, a qualificação profissional e provocou desemprego tecnológico e, muitas vezes, reestruturações dolorosas. Ao mesmo tempo, a atuação do movimento sindical foi essencial, pois permitiu reorientar processos e promover adaptações graduais. Foram quase duas décadas nas quais surgiram novos setores e atividades produtivas, novas profissões e ocupações e, com a atuação crítica e propositiva do movimento sindical, novas formas de regulação e proteção dos empregos.

Agora, a inovação tecnológica em curso tem caráter ainda mais disruptivo, e não apenas incremental. Assim como em outros momentos históricos - com os computadores pessoais, a internet, os smartphones, a conexão sem fio, as plataformas digitais e, mais recentemente, a energia solar -, o atual ciclo de inovação combina e potencializa essas mudanças em nova escala.

A inteligência artificial, integrada às redes globais de dados, à automação avançada, à robotização, à computação em nuvem e, no horizonte próximo, à computação quântica, cria capacidades produtivas inéditas, ampliando exponencialmente a velocidade, o alcance e a autonomia dos sistemas produtivos. Trata-se de um salto tecnológico que não apenas melhora processos existentes, mas redefine o próprio modo de produzir, organizar e controlar o trabalho em todas as atividades econômicas, tanto no setor privado quanto no setor público.

Produtividade, PIB e o risco do crescimento sem trabalho

Do ponto de vista econômico, a promessa da IA é clara: ganhos expressivos de produtividade, redução de custos e aceleração do crescimento do PIB. Em tese, isso poderia abrir espaço para jornadas menores, melhores salários, melhor qualidade dos postos de trabalho e ampliação do bem-estar social.

As escalas dos investimentos são impressionantes. A título de exemplo: US$ 650 bilhões é o valor que as quatro grandes empresas tecnológicas globais (Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft) estimam investir em IA neste ano de 2026. Segundo o CEO da Nvidia, Jensen Huang, espera-se que os gastos globais com a construção de data centers atinjam US$ 1 trilhão até 2028. Por outro lado, a COP luta para conseguir US$ 1,3 trilhão para salvar o planeta e não tem conseguido.

A história recente, no entanto, recomenda cautela. Nas últimas décadas, mesmo com avanços tecnológicos relevantes, observamos crescimento econômico frequentemente dissociado da geração de empregos de qualidade, estagnação salarial, precarização, vulnerabilidades múltiplas, desproteção social e previdenciária, adoecimentos crescentes, aumento das desigualdades e forte concentração de renda. Inovação acelerada e vida dura espraiada.

O que está no horizonte é que a IA pode aprofundar esse padrão, inaugurando uma fase de crescimento sem trabalho, na qual a riqueza é produzida por sistemas automatizados, mas apropriada por um número cada vez menor de empresas e acionistas. Nesse cenário, a pergunta central não é se a economia crescerá, mas quem se beneficiará desse crescimento.

Trabalho decente e transição justa

Para uma atuação sindical sob a perspectiva da classe trabalhadora, a agenda do trabalho decente, formulada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), será cada vez mais referência fundamental. Inclusão e emprego produtivo, direitos trabalhistas, proteção social e previdenciária, saúde e segurança, negociação coletiva e organizações sindicais representativas são pilares essenciais da formatação do novo mundo do trabalho.

A difusão da IA tensiona os marcos que norteiam a regulação do trabalho e dos direitos trabalhistas. A base material do emprego humano é colocada em questão; surgem novas formas de subordinação algorítmica; os sistemas de proteção social, ancorados no emprego formal, perdem sustentação diante da informalidade, das microtarefas e de mecanismos como a pejotização; há individualização das relações de trabalho, opacidade dos algoritmos e crescente financeirização das empresas.

Essa realidade exige atualização estratégica da agenda sindical, incorporando a governança da tecnologia como elemento central da regulação do trabalho no século XXI.

O desafio é estender os fundamentos da transição justa - já consolidados no debate climático - aos processos de transição digital e tecnológica. Assim como não há transição ecológica justa sem proteger trabalhadores e comunidades afetadas, não haverá transição tecnológica justa sem controle democrático da inteligência artificial e das inovações.

Negociação coletiva e regulação democrática

A inteligência artificial não se implanta no abstrato. Ela entra nas empresas, nos setores e nos locais de trabalho concretos. Por isso, a atuação sindical e a negociação coletiva são instrumentos decisivos para enfrentar seus impactos.

Os próprios desenvolvedores da IA reconhecem que o mercado não é capaz de regular sozinho essa transformação. Isso abre espaço para uma regulação inovadora, que vá além do direito do trabalho clássico.

Essa regulação deve enfrentar três dimensões centrais:

Segurança - proteção contra impactos sistêmicos sobre emprego, democracia e coesão social.

Soberania - enfrentamento da concentração do controle da IA em poucas empresas globais.

Supremacia humana - decisões fundamentais sobre trabalho, renda e organização social não podem ser delegadas a sistemas automáticos sem controle democrático.

Estamos diante de uma encruzilhada histórica. A inteligência artificial pode ampliar a produtividade, reduzir esforços penosos e liberar tempo humano. Mas também pode destruir empregos, concentrar poder e esvaziar o papel social do trabalho.

O desfecho não está escrito. Dependerá da ação coletiva, das políticas públicas e da capacidade das instituições de subordinar a tecnologia ao interesse público.

Assim como o sindicalismo foi decisivo para produzir direitos no capitalismo industrial, a tarefa agora é democratizar e regular o capitalismo industrial-digital. A tecnologia deve servir ao trabalho, à sociedade e à democracia - e não o contrário.

Clemente Ganz Lúcio é coordenador do Fórum das Centrais Sindicais e ex-diretor técnico do Dieese
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